O tsunami que arrasta o Brasil desde que se iniciou a Operação Lava Jato em 2014 traga cada vez mais longe, assanhando o desejo de vingança de um povo cansado da corrupção de seus líderes e levando desespero a uma classe política que se acostumou à impunidade. Se por um lado, a implosão do sistema político brasileiro sustentado pelo capitalismo de Estado era mais do que necessária, de outro, preocupa o risco que o jacobinismo dela resultante leva à democracia, já que a conjuntura se agrava diante da carência de líderes que possam assumir o manche e fazer com que essa nave desgovernada tenha um pouso suave na pista da normalidade.

 

O pano de fundo da grave crise vivida pelo Brasil é o capitalismo de Estado, pelo qual políticos promiscuem-se com grupos empresariais, que bancam representantes populares em troca de facilidades nos negócios públicos. Esse modelo pernicioso que alimenta a corrução, é verdade, não foi criado pelo PT dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Desde sempre foi assim e marcou o nascedouro dos principais conglomerados econômicos que até hoje operam no País e fora dele, a exemplo da malfadada Odebrecht.

 

Contudo, foi no populismo de esquerda que dominou a América Latina nos últimos 20 anos que os tentáculos desse modelo corrupto de governo fincou raízes profundas. Para se ter ideia disso, o faturamento da Odebrecht saltou de R$ 17,3 bilhões, quando Lula chegou à Presidência em 2003, para R$ 107,7 bilhões em 2014, ou seja, foi multiplicado por seis em apenas 11 anos. Outro grupo que cresceu à esteira da prática do capitalismo de Estado foi o JBS, que chegou a financiar com propinas mais de 1,8 mil políticos brasileiros. Sua receita explodiu em uma década apenas — de 2006 a 2016 — de R$ 4 bilhões para R$ 170 bilhões.

 

Esse crescimento nunca seria possível pela natural “mão invisível” do mercado, para usar uma ilustração do economista britânico Adam Smith. Tanto Odebrecht quanto JBS foram catapultados com dinheiro público do povo brasileiro, através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Dessa forma, sem as relações espúrias que cultivaram no meio político, jamais esses dois grupos teriam acesso ao bilhões de reais que financiaram sua expansão.

 

Mais que isso. As investigações da Lava Jato deixam mais do que evidente que Lula atuou como lobista da Odebrecht junto a governos ditadores e populistas na América Latina e África. Ele oferecia recursos subsidiados pela população brasileira para obras nesses países, caso a contratada fosse sua empreiteira. Em troca receberia robustas comissões da Odebrecht, que seriam pagas em forma de palestras “fakes”.

 

A corrupção como consequência do capitalismo de Estado pegou o presidente Michel Temer, cujos principais aliados ou estão presos, ou no Palácio, como bem disse o mais que premiado Joesley Batista, um dos irmãos donos do privilegiado JBS. Nenhuma surpresa. O PMDB sempre se aproveitou desse sistema político apodrecido em benefício próprio, desde que chegou ao poder com a Nova República.

 

Apesar de ser o maior partido do Brasil, com mais senadores deputados federais, governadores e prefeitos do que todos os outros, nunca se esforçou por construir uma candidatura competitiva à Presidência da República. O alvo sempre foi dominar o Congresso Nacional e, a partir disso, fazer de refém o presidente do País para conseguir ministérios e, com eles, operar negócios escusos bilionários. Não é à toa que o PMDB foi a legenda que mais comandou as duas Casas do Congresso — Senado e Câmara — desde a redemocratização, em 1985. Assim, é natural que os peemedebistas sejam os maiores sócios dos petistas na corrupção.

 

Por tudo isso que o povo brasileiro está indignado e quer a transformação radical desse modelo de política sustentado pela corrupção. O que preocupa é como está sendo canalizada essa indignação. A ruptura tinha que se dar mesmo de fora para dentro do sistema, a partir do Judiciário, porque, por conta própria, os políticos, satisfeitos com o poder e com o enriquecimento fácil, não iriam romper com uma estrutura viciada para lhes favorecer.

 

O problema é que os anos se passaram, as entranhas do modelo foram expostas, mas ainda não se vislumbra saídas possíveis para a Lava Jato e seus tentáculos. O maior agravante é o descrédito total da política e a falta de bom senso da turba em meio à marcha da insensatez que tomou conta dos debates.

 

A civilização só é possível por sua organização política. Não há outro caminho para a boa convivência social. E a democracia deve ser sua base de sustentação para que direitos fundamentais possam ser assegurados.

 

Contudo, essa cegueira geral alimentada por jacobinos da Procuradoria Geral da República, que têm se mostrado cada vez mais determinados em munir a sanha popular por vingança, extrapolando a compreensão do texto constitucional, pode levar o Brasil à barbárie. São prisões preventivas que duram anos sem julgamento, conduções coercitivas repletas de pirotecnias, ignorando solenemente a presunção da inocência, entre outros desvios apontados por renomados juristas.

 

Os procuradores são dignos dos aplausos da sociedade e foram fundamentais para que as vísceras de um sistema carcomido fossem expostas e as partes pútridas passassem a ser extirpadas. Mas, como jacobinos, avançam obcecados com sua vindita e cresce a preocupação diante da possibilidade de se instalar um período de terror com um Estado policial que desrespeita direitos básicos e inalienáveis. É inevitável que venha à mente o exemplo do ocorrido após a Revolução Francesa, quando o líder dos jacobinos Maximilien de Robespierre, depois de pedir a condenação do rei Luís XVI e criar o Comitê de Salvação Pública para perseguir os inimigos do povo, foi engolido pela insanidade que fomentou e acabou com o pescoço na guilhotina.

 

Para evitar que essa marcha termine num abismo, é urgente o surgimento de líderes capazes de jogar luz no caminho de um país perdido em meio à cegueira do ódio a seus dirigentes.

CT, Palmas, julho de 2017.

 

Perfil

Cleber Toledo é jornalista desde 1992, com passagens por jornais nos Estados do Paraná, São Paulo e Tocantins. Já lecionou para os cursos de jornalismo e publicidade em Presidente Prudente (SP) e Palmas (TO). Em 2005 fundou o site Cleber Toledo, hoje o mais importante veículo de internet do Tocantins. Em 2009 recebeu o Título de Cidadão Tocantinense, da Assembleia Legislativa do Estado, pelos serviços prestados ao Tocantins; e, em 2010, a Comenda Pedro Ludovico Teixeira, a mais alta honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Estado de Goiás, por sua contribuição à comunicação do Norte do Brasil.

 

Cleber Toledo

Diretor Executivo do CT
Cidadão Tocantinense com muito orgulho!

 

AUDIÊNCIA HISTÓRICA!

 

CT conquistou em 2015 a maior audiência de seus 11 anos de história. O maior site do Tocantins recebeu 2,173 milhões de visitantes únicos (+8,3%) e teve 56,9 milhões de páginas abertas (+71,8%).

O número médio de páginas abertas pelo internauta também teve uma “explosão” em 2015: foram 6,69 contra 3,52 em 2014 (+90,1%).

O tempo médio que o internauta fica no CT cresceu 66,5%: 7min38s contra 4min35s em 2014.

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